O seguinte texto, extraído da versão digital do segundo volume de Réquiem – Cavaleiro Vampiro produzida pela Nickel Éditions, não figura da edição física de Réquiem pela Mythos (que contém os três primeiros volumes da obra), mas é uma interessante apresentação do universo do quadrinho por seu escritor, o lendário Pat Mills…


“DANÇA MACABRA

Quando você é do bonde apocalíptico mas a treta é tensa…

Quadrinhos raramente são criados à vácuo, então esta é uma introdução de ‘Agradecimentos Especiais’ para o Volume 2. O primeiro vai para Anne Drano, a letrista da edição francesa original. Enquanto eu discutia a história e o desenvolvimento de personagens com Olivier e Jacques Collin (nosso editor), Anne com devida razão levantou a questão: “Por que um soldado alemão bom estaria no Inferno como vampiro?” Este volume começa a responder à questão dela. Nós todos temos memórias seletivas sobre quem éramos, o que fizemos, e quem somos agora, bem como nosso herói, Réquiem. Algumas vezes nós temos que esquecer eventos terríveis para podermos sobreviver e esta história começa justamente com um acontecimento terrível assim.

Em segundo lugar, obrigado ao Olivier por não me permitir diluir a história. Vocês todos vão certamente sacar em quem a Madre Terror foi baseada e se acharem que eu estou sendo muito duro, então procurem no Google o nome real da pessoa e adicionem Stern Magazine na busca, vocês irão descobrirem fatos sobre ela que talvez os deixem chocados e angustiados. E existe coisa muito pior lá na internet que a mídia de massa tradicional não tem coragem de revelar. Santa ela não era. Uma perfeita hipócrita e, dessa maneira, uma perfeita carniçal para o mundo de Ressurreição. Mas, quando eu originalmente escrevi esta história após a virada do milênio, estava sendo ativamente desencorajado pelo editor da 2000AD na época de escrever qualquer coisa polêmica, satírica ou política. “Mantenha foco na ação e no entretenimento”, foi a mensagem proclamada com ferocidade, nada com subtexto, nem nada que pudesse desafiar o leitor. Isso que, quando eu criei a 2000AD, a elaborei expressamente para fazer com que os jovens leitores pensassem. Mas vacilando perante a barragem dos comandos desencaminhados e não-negociáveis deste individuo raivoso e sua (felizmente breve) visão para o futuro da 2000AD, comecei a hesitar sobre minha um tanto que passional crítica sobre as origens terrenas da Madre T. Talvez devesse dar uma maneirada? Talvez ele estava certo e os leitores de hoje realmente querem apenas entretenimento superficial com “E” maiúsculo? Afinal, a Britânia ficou mais burra após os anos das administrações Thatcher/Blair. Então eu me censurei (a primeira vez que recordo fazer isso), e enviei uma versão revisada e mais segura. Mas Olivier (para seu crédito), decidiu que ele preferia meu original, a versão mais verbosa e passional, e colocou todas as minhas palavras de volta. Obrigado por isso, Olivier! Eu precisava daquele apoio!

Quando a 10/10 tem uns lances meio “diferentões”…

Vejam só esses franceses: eles não cedem. Além disso, Olivier ainda veio com a poderosa capa do Volume Dois. Mas então apontaram para ele que uma vampira sadomasô vestida com couro, com um chicote em mãos poderia diminuir as vendas pois impossibilitaria ser exposta no setor de vendas gerais dos mercados franceses, onde as crianças poderiam vê-la. Ao invés disso, iria aparecer em um setor separado para graphic novels. Sim, as graphic novels vendem bastante em supermercados franceses! Supermercados no Reino Unido, tomem nota! Mas Olivier não estava preparado para ceder bem como nosso editor francês, Jacques. Ele aceitou a decisão de Olivier sem questionar. Será que isso aconteceria com um editor britânico ou americano? Você sabe a resposta! Então um grande obrigado para você, Jacques, e sua integridade admirável.

Finalmente, um agradecimento especial para meu caro amigo G: um ator, escritor e camarada incrivelmente divertido. Eu escrevi este volume enquanto morei por três fabulosos meses em sua cidade, no Oriente Médio. Eu gostaria de ter ficado mais tempo, mas todo mundo estava querendo sair e as autoridades estavam suspeitando do motivo de eu querer ficar! Tenho que ser um tanto vago sobre onde no Oriente Médio e também sobre meu amigo G, pois, tanto antes quanto agora, é provavelmente mais seguro assim. Mas eu estava escrevendo Réquiem na laje de seu apartamento, olhando pelos telhados da cidade, e a imagem da Dança Macabra das naus piratas subindo acima dos edifícios foi inspirada por esta vista. G também trabalhou no Dicionário Demoníaco comigo pois ele também compartilha de um profundo nojo pela hipocrisia da Madre T. Na verdade, sempre que escrevo o Dicio do Demo agora, eu escuto a voz de G enquanto ele brilhantemente atuava no papel do aterrador e debatedor pássaro infernal, com uma hilariante voz em falsete. Isso me fez rir muito, e minha namorada na época não conseguia entender o que G e eu poderíamos achar tão histericamente engraçado para eu praticamente ficar rolando no chão. Quando nós explicamos, ela não entendeu, infelizmente acreditando no mito internacional da santidade cristã da Madre T, mesmo sendo muçulmana. Então nós tentamos abafar nossas risadas e manter entre nós, o que, é claro, só nos deixou mais terríveis! Obrigado, G, por sua incrível e clássica hospitalidade do Oriente Médio e sua grande inspiração.

Eu espero que vocês aproveitem este volume tanto quanto eu aproveitei o escrevendo. Eu estive escutando a No One Knows, do Queens of the Stone Age enquanto folheio este segundo volume. Minha recomendação pessoal para uma trilha sonora de Réquiem. Me deixem saber o que estão pensando.

Pat Mills, julho de 2014″


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http://mythologico.com.br/a-hora-do-hype-requiem-gotas-de-sabedoria-extraordinaria-de-pat-mills/
Joana Rosa Russo
joanarrt@gmail.com

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