Para você que ficou curioso com a continuidade da matéria sobre o mestre Boselli, prepare-se, ai vem a segunda parte!

Publicada fisicamente na série Tex Coleção, o mestre dos mestres respondeu perguntas muito importantes, que vão bem além do ingresso no mundo dos fumetti. E pela importância sem igual, o Blog Mythológico honra nosso querido roteirista e republica essas entrevistas em forma de capítulos!

E para testar seus conhecimentos, lá vem pergunta: em que número da Tex coleção ESTA SEGUNDA parte foi publicada? E em qual mais veículo de informação esta entrevista foi originalmente concedida?

(Linguagem: pt-pt).


ENTREVISTA COM MAURO BOSELLI – Parte II

Como e quando você entrou para a SBE e qual foi seu primeiro trabalho? E como passou a fazer parte da equipe de Tex Willer?

Depois de vários pequenos trabalhos para a Editora, depois da experiência no estúdio de G. L. Bonelli e da versão televisiva dos quadrinhos Bonelli feita em conjunto com Giorgio Bonelli e Ferruccio Alessandri, minha primeira colaboração continuada com a Bonelli começou na época em que Sergio Bonelli começou a publicar na Itália as revistas da editora francesa Dargaud, com a marca Bonelli-Dargaud, em 1982, e Tiziano Sclavi era o editor da versão italiana da revista francesa Pilote, com o nome Pilot. Eu fazia a paginação, corrigia, traduzia e escrevia textos de matérias em metade do expediente. Na outra metade, na sede central da Bonelli, eu escrevia outros textos (a seção de cartas de Martin Mystère, os artigos de TuttoWest), corrigia avalanches de páginas em quadrinhos e começava a escrever ou reescrever (de forma anônima) as minhas primeiras histórias (e à noite eu ainda trabalhava numa biblioteca pública de Milão, mas isso não conta!). A primeira história de Tex nasceu de um argumento idealizado junto com Giorgio Bonelli, e fiz o roteiro de umas cem páginas antes de passar a G. L. Bonelli em pessoa. Ele manteve intactas as páginas já escritas e concluiu a história, sem levar em conta o meu argumento por demais complicado, e a história foi passada a Letteri. Dois anos depois, Tiziano Sclavi passou-me a história para que ela fosse alongada e para que o final (muito rápido) fosse arrumado. Eu acrescentei umas vinte páginas, reescrevi outras, mas sem poder manter a versão original. Essa história era A Ameaça Invisível. Não se podia ter a pretensão de escrever Tex sem acumular uma experiência prévia. Por isso, após escrever a aventura River Bill a partir de uma ideia de Nolitta, pensei em criar experiência com Zagor, e consegui convencer o severo Decio Canzio de meu valor, porque, algum tempo depois, por ocasião de uma crise de Nizzi, Canzio pediu-me para tapar um buraco e escrever uma história com Marcello (que havia desenhado alguns dos meus primeiros roteiros de Zagor). Procurei escrever a melhor história que eu tinha em mente e foi O Passado de Carson. A partir dali eu me tornei, por acordo tácito, o vice de Claudio Nizzi.

O que significa para você escrever histórias de uma lenda dos quadrinhos como Tex?

Porque sim, ele PODE.

A primeira coisa que me vem à cabeça é que é uma honra! E uma grande responsabilidade. Além de um sonho realizado, é claro! Busco manter alta a bandeira de Tex e, ao mesmo tempo, procuro divertir-me. Se a cada vez eu pensasse “o que G. L. Bonelli diria?” ou “o que os leitores dirão?”, então eu não conseguiria me divertir e tampouco os leitores. Digamos que a minha visão de Tex já está englobada em meu imaginário e que deixo correr a caneta e a imaginação. Creio que cada um dos leitores tem uma visão própria de como Tex deve ser; e eu – que fui e sou leitor de Tex – também tenho uma bem definida. Também creio que a minha visão tenha uma boa margem de crédito, graças aos anos de proximidade com o criador de Tex, com o seu editor e com a Editora. Mas não estou a me colocar sobre um pedestal! Digo apenas que eu seria pouco profissional se não encarasse a tarefa como profissional.

Seus roteiros sempre impressionam por uma grande construção psicológica dos personagens. Por que dar tamanha importância aos atores de cada aventura?

As tramas têm muita importância para o sucesso de uma HQ e eu sempre busco torná-las emocionantes e inesperadas. Mas no fundo, como dizem os estruturalistas, todas as histórias escritas e impressas, a partir de Homero, baseiam-se em poucas tramas-base, sempre as mesmas. Eles estão cobertos de razão. Para esses mesmos estruturalistas os próprios personagens são simples funções narrativas e todos se equivalem. Mas aqui eles são desmentidos pelos fatos. Há personagens que, aos leitores, parecem mais vivos que os vivos! Ulisses, Polifemo, Sherlock Holmes, Os Três Mosqueteiros… Tex! O que se recorda de uma trama sempre são os personagens, por isso é fundamental que uma história tenha atores com personalidade forte. E não só os protagonistas, mas também os atores coadjuvantes. Meus romancistas preferidos – e cito um por todos, Dickens – deram alma e caráter ou, de todo modo, uma migalha de vida a cada mínimo figurante! Os quadrinhos são diferentes de um romance do Século XIX, mas também na breve duração de uma revista as criaturas de papel devem atingir o leitor com algo de característico e único (no nosso caso, o desenhista ajuda!). E acrescento que meu modo de escrever não é cerebral, mas sim espontâneo e quase automático. Ou me vem ou não me vem. Mas como escrevo de modo quente e não frio, tenho tendência a pensar nos atores das minhas histórias como pessoas de verdade… eu me preocupo com elas, me emociono se morrem. Talvez eu consiga comunicar um pouco disso aos leitores. Os vilões de uma HQ, por exemplo, não podem ser banais.


Continua em breve!

Ouça a música You’re The Boss, de Brian Setzer:

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Joana Rosa Russo
joanarrt@gmail.com

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