Entrevistas são sempre alvo de muita curiosidade por parte dos leitores, ainda mais quando o nome ‘Boselli’ aparece.

Publicada fisicamente na série Tex Coleção, o mestre dos mestres respondeu perguntas muito importantes, que vão bem além do ingresso no mundo dos fumetti. E pela importância sem igual, o Blog Mythológico honra nosso querido roteirista e republica essas entrevistas em forma de capítulos!

E para testar seus conhecimentos, que tal: em que número da Tex coleção ESTA primeira parte foi publicada? E em qual mais veículo de informação esta entrevista foi originalmente concedida?

(Linguagem: pt-pt).


ENTREVISTA COM MAURO BOSELLI

 

Comecemos com os seus dados, como data e local de nascimento, estudos e profissão.

Eu nasci em Milão no dia 30 de agosto de 1953, que também foi o dia em que o grande ciclista Fausto Coppi venceu o título mundial. Milão foi e ainda é uma cidade de imigração, para onde vão todos os italianos em busca de trabalho. Minha mãe era piemontesa e meu pai emiliano, daquela região da Emilia que se chama La Bassa, em razão da sua planície chata, perto do rio Pó, a terra de Giuseppe Verdi e de Giovanni Guareschi, o autor da ópera Dom Camilo. Eu gosto muito daquela terra (e da sua comida), mas talvez por uma reação à planície, quando era criança e andava sozinho de bicicleta pelas margens do rio, eu sonhava em me tornar explorador e alpinista, em atravessar florestas e escalar montanhas. Na verdade, alguns dos sonhos de infância se realizaram e passei metade da juventude a subir em montanhas de todo tipo (e cheguei até a “voar”: eu caí umas quatro vezes, mas sempre com consequências mínimas). Mas já na época estava claro que a verdadeira realização dos meus sonhos estava na imaginação, e eu via meu futuro como um Salgari, a criar aventuras na escrivaninha.

Que lugar tiveram as HQs, principalmente Bonelli, na sua infância?

Eu comecei a ler sozinho aos quatro anos de idade, a folhear as revistinhas italianas de Mickey Mouse em formato livreto, e a me apaixonar principalmente pelas grandes histórias de Romano Scarpa, de quem na época eu não sabia o nome, claro (naquele tempo os quadrinhos populares não indicavam o nome dos autores), mas cujo estilo eu identificava de imediato, tanto desenhos como roteiros. E as histórias de Scarpa eram complexas, aventurosas, ricas de golpes de cena. Foi amor à primeira vista. Na época eu também devorava as histórias feitas por Bottaro, Rebuffi, Chendi. Nas bancas havia Pecos Bill, havia o Corriere dei Piccoli, que publicava Os Sobrinhos do Capitão e os quadrinhos de Sergio Tofano. E ainda havia as reedições de Flash Gordon, Mandrake, Fantasma, Príncipe Valente. Quando eu tinha dez anos, chegaram na Itália as HQ da escola franco-belga: Michel Vaillant, Blueberry, Asterix, Tintin. Quando eu tinha doze, nasceu a revista Linus, que me fez conhecer Peanuts, Popeye, Jeff Hawke, Ferdinando. Eu sempre li HQ de todo tipo (mas não deixava de lado os romances; já havia descoberto Dickens, Dostoievski, Buzzati, os policiais, a ficção científica, Dom Quixote). Dou um passo atrás: aos cinco anos tive em mãos minhas primeiras revistinhas em tiras de Tex e aos seis encontrei na escola o filho mais novo de Giovanni Luigi Bonelli, Giorgio. Eu ainda me lembro do cheiro da tinta daquelas velhas revistinhas.

Como você se tornou escritor de quadrinhos? Foi por acaso ou por vocação? Por quem ou pelo que foi influenciado?

Ao ler alguns dos vários quadrinhos que povoavam as bancas italianas de então, muitas vezes eu “sobrepunha” às imagens e aos textos novas aventuras imaginadas por mim. Fantasia total. Aos onze anos eu guardava várias folhas com os nomes dos protagonistas, um pirata, um caubói, um astronauta, um agente secreto, além dos títulos das aventuras de cada um deles. Verdadeiras “séries” que só existiam dentro do meu pequeno e delirante cérebro. Às vezes meus amigos escolhiam um título e eu, a partir dessa ideia, improvisava complexas narrativas aventurosas com um golpe de cena atrás do outro. Eu sabia que seria escritor, e queria me tornar o novo Salgari ou o novo Fleming, mas creio que me direcionei para os quadrinhos só depois de conhecer pessoalmente G. L. Bonelli e a sua incrível personalidade. Trabalhei dois anos em seu estúdio. Bem, trabalhar não é bem o termo! Nós ficávamos conversando; ou melhor, ele falava e eu ouvia suas histórias. O percurso em direção às HQ não foi linear. Depois da universidade – que abandonei quando faltavam dois exames para o final, por razões à época muito válidas – fiz um sem-número de outros trabalhos (professor, vendedor, tradutor, bibliotecário, diretor de “quadrinhos na TV”) e só me tornei roteirista profissional “no meio do caminho da nossa vida”.


Continua em breve!

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Joana Rosa Russo
joanarrt@gmail.com

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