Muitas vezes somos inundados de perguntas do gênero: agora que o filme do … saiu, vocês vão publicar mais coisas?

Responder a essa dúvida de cara é um pouco delicado. Tanto para o leitor quanto para o/a editor/editora. Mas porque?

No fundo, tanto faz: eu leio, jogo e assisto comendo pipoca. Então, habemus pipoca. – filósofo do Twitter

Os públicos: filmes, jogos e HQs.

A primeira ponderação a se fazer é justamente sobre a questão dos públicos. Nem sempre o publico que consome uma mídia ou veículo é o mesmo que consome a outra. Ou seja, nem sempre são convergentes nas demandas.

Não se discute que cada público só consome um tipo de entretenimento, mas sim, que nem sempre ele tende a consumir ao mesmo tempo, do mesmo personagem, vários veículos distintos.

Este comportamento acaba sendo gerado por diversos fatores, mas os principais são:

  1. Imersão da história;
  2. Conforto/preferência de mídia;
  3. Fidelidade à origem;
  4. O enredo e apelo da história.

Mas em geral, como funciona essa história de influência de uma mídia sobre a outra?

Videogames e quadrinhos: dá certo? E o inverso?

Historicamente, revistas em quadrinhos de personagens de videogame sempre foram mal no Brasil, pois são muito paradas, dependendo do seu enredo. Exceção à regra é Legend of Zelda, que foi bem recepcionado pelo público, talvez por lidar com a memória afetiva de um personagem longevo.

O mesmo já não ocorreu por exemplo com Wolfenstein, que foi editado somente lá fora e não emplacou. Mesmo sendo um marco na história dos FPS (tiro em primeira pessoa), já que foi o precursor do gênero, não consegue emplacar e fidelizar leitores, justamente por causa da ausência da cinética vista no jogo.

Para citar outra situação, temos a clássica dos jogos da Bonelli. Para quem nunca ouviu falar, a Sergio Bonelli Editore, lá nos anos 1990, fez um grande experimento com a Simulmondo, uma desenvolvedora italiana de jogos para computador. Títulos como Dylan Dog, Martin Mysterè e Tex ganharam versões em disquete e fizeram sucesso por um tempo. Mais tarde, outra produtora veio com Julia, mas que também pereceu.

É complicado atribuir o insucesso ao avanço tecnológico e que eventualmente, não deu certo porque não “atualizaram” os gráficos. O mais plausível é por causa do público especificamente que consumiam estes títulos que, dada a diferença de gosto, não levou adiante e não fomentou uma maior aderência no mercado.

Ou seja, o gargalo gerado não aguentou por muito tempo, fazendo com que os títulos não ganhassem séries longas ou uma continuação. Se você não sabia da existência destes jogos, há um super conglomerado de matérias que foram publicadas no Tex Willer Blog. Dá um pulo lá e confira clicando aqui.

Acaba que, normalmente, jogos de quadrinhos não se criam no meio eletrônico se não forem bem adaptados. O cuidado neste ponto é visceral já que envolve um terreno arenoso que acomoda um público já cativo das páginas impressas e outro totalmente novo e desconhecido, o que, sem dúvidas, na maior parte das vezes, um SENHOR problema, e decreta a morte de muitos títulos antes mesmo de começar. 

Seja do quadrinho para o jogo ou do jogo para o quadrinho, é complicado. Lidar com púbicos tão distintos é sempre delicado demais…

O cinema e o quadrinhos. O que se ganha com isso?

Por sua vez, personagens de quadrinhos que ganham filmes costumam ser ajudados, DEPENDENDO de como se faz e o enredo.

Temos alguns exemplos práticos, inclusive de personagens que a própria Mythos publica, como Dylan Dog e Tex. Mas antes de discorrer sobre eles, vale um pequeno comparativo.

Se filme de herói dá certo, porque os outros não deram?

  1. Heróis

Mesmo que os filmes sejam uma porcaria, o apelo lúdico empurra o mercado, principalmente das crianças, dá um certo lucro e ajuda o personagem. “Ah, mas se é uma porcaria eu não compro” pois é, você não compra, mas uma criança influenciada pelo filme… Bem, ela consome.

E, eventualmente, até ela tomar consciência de que determinado filme é uma porcaria ou não é tão bom, o “estrago” já foi feito: o represamento de consumidores já está feito, seja grande ou pequeno.

Por isso, todo filme de heróis, sejam eles qual forem, tem uma apelo lúdico muito forte. Mesmo que o publico adulto não se renda ao consumo dos produtos derivados, os mais novos vão obriga-los a isso.

Então mesmo que um público rejeite, a princípio, o objetivo do filme foi atingido.

Claro que, exceções à regra, há incontáveis filmes bons. E neste caso, considerando o terreno que exploram, mesmo que eles não sejam fiéis aos quadrinhos, eles tem uma elasticidade de temática muito grande. O universo que eles interagem dão uma vazão e amplitude muito grande, diferente de outros personagens mais restritos ou tradicionais, como o caso de Tim Tim, de Hergè.

2. Personagens mundanos

Tex e Dylan Dog ganharam filmes no passado. E não foram bem aceito pelos público. De um lado, cinéfilos não gostaram muito da pegada mais presa a uma “inspiração”. Tex padeceu do heroísmo dos quadrinhos. Dylan, não cativou em sua plenitude.

Sobre Dellamorte Dellamore, o título que é inspirado em Dylan Dog não agradou a crítica. Na época inclusive, chegou a ser avaliado com 2,5 estrelas por inúmeros críticos. Somente em 2010 para cá, com a onda “cult”, o filme acabou sendo reavaliado e ganhou status para o novo público. Mas ainda sim, quem é fã de Dylan e o assiste, não se convence dessa avaliação.

Com Tex ocorreu o mesmo: em 1985, ainda no calor das produções de faroeste, Giuliano Gemma deu vida ao icônico personagem Tex Willer no filme “Tex e o Senhor dos Abismos”. A crítica ficou dividida.

De um lado, fãs de faroeste; de outro, fãs de Tex. E não, nem sempre eles são sinônimos. E foi justamente isso que foi considerado. A escolha que inspirou o filme tem uma pegada muito mais sobrenatural que qualquer filme de faroeste “convencional” e isso pesou muito para a maior parte do público que não era leitora dos quadrinhos.

Por isso é bem delicado você empenhar personagens mais “mundanos” nas telonas. Nem sempre, por conta de suas características, eles acabam sendo bem assimilados pelo público de bilheteria. E isso acaba arrastando boa parte dos interesses e novos riscos morro abaixo.

Mas, em contrapartida, algo parece despontar no horizonte: numa nova experiência, com um título mais “camaleão” para o cinema, a Sergio Bonelli Editore arriscou com Monolith: um suspense/terror altamente tecnológico. Infelizmente o título não chegou às salas brasileiras, mas teve um bom desempenho avaliado pela crítica italiana.

Mas e você, leitor, o que pensa a respeito da influência de uma mídia sobre a outra no mercado? Queremos ouvir vocês!

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http://mythologico.com.br/off-topic-filmes-jogos-e-hqs-a-influencia-dos-mercados/
Joana Rosa Russo
joanarrt@gmail.com

4 thoughts on “[OFF.TOPIC] – Filmes, jogos e HQs – a influência dos mercados”

  1. Muitas vezes realmente não é fácil transpor algo de uma mídia para outra, pois algo que funciona em uma mídia (como quadrinho) não necessariamente funcionará em outra (como em um jogo). Existe outro ponto importante que é manter a essencial do personagem ou da obra na adaptação, às vezes, algo que os idealizadores não entendem e não capturam, fazendo com que o público não goste da adaptação.

    Eu acredito que Dellamorte Dellamore funciona bem porque não é o Dylan Dog, como é algo livremente inspirado no personagem funciona, entretanto se fossem fazer um filme do Dylan Dog é provável que iriam “americanizar” demais e fugir da essencial do personagem.

    Outra coisa que também não ajuda é a nossa expectativa (leia-se hype) quando é anunciado algo, é melhor não ter expectativas referente a um novo filme ou jogo e ir com a mente “limpa”, dessa forma pode se aproveitar melhor aquilo que a obra tem de bom sem ser muito crítico (algo que aparentemente todos são).

    Obrigado Joana por trazer mais um texto desses…

    1. Oi Alexandre! Poxa que bom ver você por aqui novamente! Eu concordo plenamente com você sobre a questão da fidelidade à fonte. É sempre um ponto delicado. E a hype prejudica. Eu quando migro de um veículo para outro procuro manter a mente aberta. As vezes se você não conhece a fonte na qual o filme ou jogo foi inspirado você ama. Mas se conhece, torce o nariz. Então como é bem subjetivo, eu sempre procuro o meio termo. Tem muita obra boa inspiradas em outras mídias que dão super certo. Mas confesso também que algumas, deus, é uma tragédia!

      Se você tiver uma sugestão que a gente possa debater, pode mandar, Ale! Ficarei feliz em pesquisar!

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