Dentre os inúmeros contos que integram a obra Hellboy – Estranhas Missões, destacamos “Um conto de fadas sombrio“. E, não por acaso: sua autora, Nancy A. Collins, é uma célebre escritora de contos de horror fiction dos Estados Unidos.

Apesar de focada em novelas vampíricas, Collins também escreveu para histórias em quadrinhos, incluindo a série Swamp Thing, Jason vs. Leatherface, Predator: Hell Come A Walkin e para sua produção autoral,  Dhampire: Stillborn.

O enredo detalhado e cheio de ação dispensam qualquer arte. Evidente que, se fosse o caso, casaria perfeitamente. Mas, considerando o nível de detalhamento de Collins, qualquer alegoria é mera futilidade.

Por isso, sejam bem-vindos aos contos de Hellboy…

Um conto de fadas sombrio

Ele estava tomando a segunda xícara de café quando Liz Sherman entrou na sala de conferências com a edição matinal enfiada debaixo do braço

— Não. Deveria? — ele grunhiu, erguendo uma sobrancelha.
— Veja por si próprio — ela respondeu, jogando o jornal de modo que ele deslizasse por metade do comprimento da mesa.

Ainda que ele não tivesse uma visão muito superior à média, conseguiria ter lido a manchete do outro lado da sala:
Quem Hizzoner vai chamar?
Prefeitura aciona BPDP para o Caso dos Nenês Sumidos!

— Que ótimo — ele disse, exibindo uma presa em desgosto. — Quem deixou o coelho sair da cartola?

Liz deu de ombros:

— Estamos na Grande Maçã. Eu preferia enfrentar poltergeists com déficit de atenção a me envolver com a imprensa nesta cidade.

Ele suspirou e, apesar de contrariado, estendeu-se para alcançar o tabloide e inspecioná-lo melhor, deixando o café de lado para poder usar a mão esquerda. A direita não era opção, já que ela só servia para esmagar blocos de concreto por ser feita de pedra viva e ser desproporcionalmente grande para seu corpo. O efeito visual geral não diferia do causado por um gibão usando uma única luva de boxe.

Mas, até aí, em se tratando do restante de seu corpo, ninguém o tomaria por “normal”… ao menos não fora do Inferno de Dante. Com dois metros e quinze centímetros de altura, pesando em torno de 225 quilos, com a pele escarlate brilhante, cascos divididos ao meio e um rabo longo e preênsil que parecia o cruzamento entre um lagarto e um macaco, ele seguramente fazia jus ao único nome que, até onde podia se lembrar, já fora chamado: Hellboy.

Ele examinou o artigo do jornal, cuja histeria era longa, mas a veracidade curta, típico dos tabloides. A única coisa de interesse real era uma postagem na lateral, que mostrava imagens de crianças desaparecidas; doze no total até então.

Apesar da prosa inflamada, estava claro que os nova-iorquinos estavam genuinamente trabalhando nos desaparecimentos. Embora tal preocupação pudesse parecer incomum para uma cidade que se orgulha da sua história de indiferença, havia diversos fatores que tornavam a situação emocionalmente volátil. Em primeiro lugar, a idade das crianças: nenhuma tinha mais de seis anos; em segundo, todas tinham sido levadas do Central Park, o santuário mais sagrado da cidade contra todo o vidro e concreto que o cerca; em terceiro, as abduções aconteceram à luz do dia, a poucos metros de distância dos pais ou guardiões das crianças; em quarto, todas as crianças vinham de famílias de boa renda, sendo bem-cuidadas e até mimadas; e em quinto, nenhum pedido de resgate fora recebido pelas famílias nas seis semanas desde que os desaparecimentos haviam começado, o que dava a impressão distintiva de que o motivo dos raptos não era financeiro, mas depravação. Alguém estava roubando crianças do centro de Manhattan e, agora, quatro dias após a décima segunda ter sido levada por mãos invisíveis de cima de um dos cavalos alegremente pintados do Carrossel, enfim havia alguma prova que apontava para uma força paranormal por trás de tudo.

Motivo pelo qual Hellboy e os outros do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal tinham vindo ao amanhecer da sua sede na vizinha Fairfield, Connecticut, para se encontrar com o prefeito, na Mansão Gracie. Que ainda tinha de dar as caras.

Típico. Venha rápido e espere. Hellboy grunhiu.

De repente, as portas da sala de conferências se abriram e o prefeito entrou, cercado por vários auxiliares, uma secretária pessoal e o professor Bruttenholm ao seu lado. Ele parecia um sujeito que tentava tomar café da manhã, terminar de se vestir e checar as mensagens de seu gabinete tudo ao mesmo tempo. Era em ocasiões como aquela que Hellboy ficava feliz por seu trabalho requerer apenas que ele enfrentasse monstros.

— Olha, Mitch… não me importa o que você pense, o Sindicato dos Trabalhadores de Saneamento tá com nossos bagos num torno… e sabe disso! — o prefeito latiu para o telefone sem fio enquanto fazia um ajuste final em sua gravata. — A vida nesta cidade já é um pé no saco sem ter as pessoas atoladas em meio a sacos de lixo quando estão indo e vindo do trabalho. E não quero nem começar a falar dos turistas. Pode deixar o Comitê Orçamental chiar! Recuso ter uma greve dos lixeiros no meu mandato, ponto final! Você não consegue ser governador se tiver de escalar uma montanha de fraldas descartáveis. Olha, tenho outras coisas pra me preocupar agora. Te retorno mais tarde.

Revirando os olhos de frustração, o prefeito fechou o telefone e o entregou para um dos auxiliares:

— Perdão por manter vocês esperando.

Hellboy ficou de pé e estendeu a mão esquerda para o prefeito:

— É perfeitamente compreensível, senhor prefeito…

Como um autêntico político, Hizzoner nem piscou ao apertar a mão dele:

— É uma honra conhecê-lo, senhor Hellboy.

— Só Hellboy, senhor — ele explicou, voltando ao seu assento, que rangeu ante seu imenso peso.

O professor Bruttenholm tossiu seco em seu punho cerrado. O velho tinha físico frágil, estando na casa dos noventa anos, mas o fogo em seus olhos compensava qualquer limitação trazida pela idade. Como fundador do Bureau e pai adotivo de Hellboy, Trevor Bruttenholm ainda era uma força a ser reconhecida.

— Pedi que meus homens varressem a área onde a última abdução relatada ocorreu. Os resultados do espectrograma indicam sem sombra de dúvida a presença de energia mística no local. Seja lá o que está raptando essas crianças, é de natureza  sobrenatural.

O prefeito franziu a testa:

— Acha que são satanistas?

Bruttenholm meneou:

— Da natureza que está sugerindo, não. Mas não pode ser descartada a adoração ao demônio como motivação para os raptos.

— E o quão cedo acha que Hellboy irá encontrar essas crianças e trazê-las de volta sãs e salvas?

Houve um silêncio desconfortável e uma troca de olhares entre os membros do Bureau. Após uma longa pausa, Hellboy falou.

— Senhor prefeito… senhor… não quero tornar a situação ainda mais perturbadora do que já é para as famílias, mas a chance de as crianças ainda estarem vivas é de menos de um por cento. O que as está apanhando, o está fazendo apenas com um propósito: consumo!

O prefeito empalideceu, e sua secretária pessoal pareceu ficar nauseada.

— Meu Deus. Quer dizer… canibalismo?

— Não sei sobre a parte do canibal, mas certamente estamos lidando com uma entidade antropofágica — explicou Bruttenholm.

— Como é? – inquiriu o prefeito.

— Algo que devora humanos — Liz explicou melhor.

— Que tipo de coisa faria isso?

Bruttenholm coçou o queixo, meditativo:

— Há várias criaturas que gostam do sabor da carne humana, mas, visto o tipo de vítimas e as circunstâncias dos desaparecimentos, eu diria que estamos lidando com um ogro… possivelmente algum tipo de demônio inferior. Ambos são conhecidos pela predileção por carne de crianças. Mas, até aí, os sinais também indicam uma clássica abdução de fadas.

— Pode repetir? — comentou um dos auxiliares, que usava na lapela um bóton triangular rosa na lapela.

— Todas as lendas e folclores são baseadas em fatos, meu jovem — Bruttenholm respondeu. — Há numerosos relatos sobre crianças sendo encantadas pelo povo das fadas e levadas para a Terra Debaixo da Colina — a Terra do Nunca, se assim preferir.

— Está dizendo que Peter Pan roubou essas crianças…

— Não o Peter Pan, pois ele é uma obra de ficção, mas sim a realidade na qual esses personagens bonitinhos foram baseados.

O prefeito balançou a cabeça em descrença:

— Depois de uma vida inteira em Manhattan, achei que já tinha visto e escutado de tudo, mas isso aí bate vários recordes. Tem certeza de que não são  satanistas?

— Bastante.

— Droga! — ele ficou alguns instantes olhando para o chão; então, começou a sorrir, como se algo tivesse repentinamente lhe ocorrido. — Se as crianças foram abduzidas por duendes ou sei lá o que são essas coisas, ao menos estão bem, certo? Digo, fadas não são perigosas. Elas são só mulheres pequeninas com asas de borboleta, certo?

Hellboy olhou para o professor, que balançou a cabeça. O velho devia estar certo. Em alguns casos, quanto menos se diz, melhor, ainda mais em se tratando de políticos. O prefeito estava desesperado para tentar encontrar algum motivo que lhe permitisse vestir sua melhor expressão sorridente. Dizer a pais sofrendo que seus filhos tinham sido levados para a Montanha dos Doces pelo Flautista Mágico decerto soava melhor do que falar que elas tinham sido devoradas vivas por um ogro.

Foi decidido que, por causa do tamanho do Central Park, seria melhor se os operativos do Bureau se colocassem em pontos estratégicos. Liz ficou no Zoológico Infantil, o professor ficou de olho no Carrossel, enquanto Hellboy foi designado para o Parquinho Heckscher.

Com dois escorregadores, uma caixa de areia, vários conjuntos de balanços e uma casa de bonecas, Heckscher era a maior área para crianças brincarem de todo o parque. E dado o acesso fácil para a rotatória Columbus Circle, era considerado o alvo mais provável para o próximo ataque do que quer que estivesse raptando as crianças.

Trajando seu sobretudo marrom de couro, a gola erguida e um chapéu largo puxado sobre a testa para ocultar os tocos de chifres amputados, Hellboy sentou-se num banco de madeira próximo dos balanços e tentou erguer o mínimo de suspeita possível. Felizmente ele estava em Nova York, ou teria fracassado miseravelmente.

Enquanto assistia às hordas de crianças correr para lá e para cá entre os balanços e escorregadores, ocorreu a Hellboy que jamais havia sido exposto a um número tão grande de crianças humanas de uma só vez num mesmo lugar. Ele ficou surpreso pela energia e intensidade que depositavam nas brincadeiras diárias, como se o destino do mundo dependesse do quão alto se balançariam ou de quem escorregava mais rápido.

Hellboy não ficava muito confortável entre crianças. Sua infância tinha sido solitária, se é que podia ser chamada assim. Contudo, a inquietação dele em meio às crianças não era meramente o resultado de ter crescido destacado delas. Seu maior problema com os pirralhos era que eles tendiam a quebrar fácil. Dada a sua reputação de brutamontes, Hellboy tinha pavor de tocá-las.

Uma vez que ele fora criado em condições como as de um laboratório, onde todo o seu desenvolvimento, tanto físico quanto mental, fora medido, mensurado e documentado, Hellboy nunca fora exposto a outras crianças da sua idade, muito menos espécie. Ele sabia da existência delas, claro. Conseguia lembrar-se com clareza de quando o professor lhe deu a primeira cópia de As Loucuras de Dick e Jane, e do quanto ficara abismado ao descobrir que nem todos os garotinhos tinham pele vermelha e cascos.

Mesmo assim, Hellboy não achava que sua infância tinha sido infeliz. O professor dera o seu melhor para criá-lo como uma criança humana, visto as condições singulares em que se encontravam. E sempre que Hellboy pensava sobre como sua criação poderia ter ficado ao encargo dos nazistas que o trouxeram para este plano mortal, estremecia. Mas essas coisas não o impediam de ter uma leve sensação de perda enquanto assistia às crianças brincando.

Conforme o dia passava, Hellboy ficou surpreso de quantas delas aproveitavam o parque, a despeito dos eventos sinistros das últimas semanas. Contudo, se as crianças ignoravam a nuvem sinistra que pairava sobre seu parquinho de diversões predileto, o mesmo não podia ser dito dos adultos que as acompanhavam.

Enquanto examinava os bancos vizinhos, Hellboy não pôde deixar de notar a diligência que os pais, babás e outros cuidadores dedicavam aos filhos, deixando de lado as típicas conversinhas em prol de uma vigília pétrea. Ele entendia a preocupação deles, mas pouco adiantaria por conta da natureza da ameaça que enfrentavam. A mera visão humana não adiantaria nada contra as forças mais antigas do que as pedras dos druidas ainda de pé.

Ele cafungou o ar em busca do fedor característico do paranormal, mas só o que captou foi o odor de estrume de cavalo de uma baia equestre nas proximidades e, quando o vento soprou do leste, o cheiro bem mais forte das feras exóticas que viviam do zoológico.

— Hellboy, responda, Hellboy. Está na escuta? — a voz de Liz o chamou no comunicador de ouvido, vinda do pequeno equipamento que estava usando.

— Sim, escuto alto e claro — ele grunhiu no microfone da lapela. —  Qualé?

— Nada demais. Achei que pudesse ter avistado o nosso alvo, mas acabou sendo só uma variedade de pedófilo de jardim.

— Esse é um pensamento reconfortante.

— Acha que a cobertura da imprensa pode tê-lo afastado? Hellboy deu de ombros, mesmo ela não estando presente para ver:

— Isso é supor que a coisa possui o cérebro necessário para ler jornais, quanto mais ter o troco no bolso para comprá-los. Você sabe como é, Liz. Vamos aguardar até que Bruttenholm diga o contrário. Tem muita coisa em jogo aqui.

— Você tá certo, Hellboy. Mesmo assim, continua achando que estamos perdendo tempo.

— Vamos ver. O dia ainda não acabou. Câmbio e desligo.

Mas após outra hora se passar, ele estava começando a concordar com Liz sobre a tocaia ser um desperdício total.

Hellboy começou a sentir um leve tremer logo acima da fronte. Ele sentou-se reto, seus sentidos estavam aguçados. Sempre sentia uma dor de membros-fantasmas vinda dos chifres quando havia um ser paranormal na área.

De início, ele o confundiu com um dos pais, mas havia algo na forma como se movia que chamou a sua atenção. A coisa caminhava com intenção e propósito, como um soldador subaquático que sabe que possui um breve montante de tempo antes que fique sem ar, preso num ambiente hostil. A coisa trajava roupas largas e soltas, com um cachecol sobre a cabeça, que ocultava suas feições de um observador casual. Era gracioso demais para ser um homem, mas alto demais para ser mulher. A coisa ignorou as outras crianças brincando como formigas sobre um pedaço de doce nos brinquedos do parquinho, e seguiu em direção a uma dupla de loirinhos que estavam sozinhos, jogando bola. O estranho chamou as crianças, que pararam o que estavam fazendo e olharam para aquela face oculta. O garotinho, o mais velho da dupla, imediatamente sorriu e deixou a bola cair.

Hellboy levantou-se imediatamente, enquanto transmitia uma mensagem; a mão esquerda buscando de modo instintivo a arma.

— Professor! Liz! Venham já! Estou vendo! A coisa está aqui!

— Hellboy! — a voz cansada de Bruttenholm estalou em seus ouvidos. — O que é?Com o que estamos lidando?

— Diz pro Cartier que ele venceu a aposta no escritório — Hellboy rosnou de volta.

— Estamos lidando com uma fada.

— Qual subespécie?

— Não dá pra ver daqui. Ela pôs duas crianças na mira.

— Dá pra você atirar?

Ele detestava tanto criaturas sobrenaturais que sentiu-se tentado em seguir em frente e disparar, mas, no último instante, o treinamento que teve no Bureau falou mais alto:

— Não posso. Há muitos civis na área, a maioria crianças.

A mãe de uma delas, talvez até das duas, levantou do banco onde estava e se adian- tou, segurando a manga do estranho. A criatura virou-se para a mulher e removeu o véu, revelando momentaneamente um rosto andrógino, de ossos malares pronunciados, olhos no formato de amêndoas e pele macia. Sua beleza radiante e assexuada era tão pura que transfixava e desarmava instantaneamente, como o rosto de um santo. Contudo, a fome ferina que queimava nos olhos dourados era longe de beatífica.

A face da mulher ficou nula, e a mão soltou a manga do estranho, permanecendo dependurada como se estivesse morta. Sem dizer nada, ela virou-se e voltou ao banco, encarando o vazio, apanhada pelo mesmo glamour que outrora capturara Merlin, séculos antes.

Enquanto a criatura recolocava o véu, Hellboy viu de relance os cabelos finos como teias de aranha, da coloração do ovo de um tordo-comum. Seus olhos se arregalaram. A fada virou o olhar hipnótico para as crianças e segurou a diminuta mão delas com sua própria, caminhando do parquinho na direção da rotatória Columbus Circle. As crianças a seguiram obedientemente, sem chorar ou reclamar.

— Droga — ele grunhiu.

— Que foi? O que está acontecendo? — Bruttenholm quis saber. — Fale comigo, Hellboy!

— É uma Cailleach Bheur.

— Era o que temia — replicou o velho. — Tente manter a coisa aí. Estamos chegando.

— Tarde demais, professor. Ela capturou as presas e não dá para eu esperar. Vou ter de me envolver. Vou tentar segui-la!

— Segui-la?! — Bruttenholm bradou.

— Não tenho opção, professor. Se for atrás dela, talvez possa encontrar as outras. Houve um momento de silêncio do lado do professor, então, a voz do velho reapareceu no comunicador, soando bem mais velha do que Hellboy sabia que era.

— Tudo bem, filho. Vá em frente e o siga. Não se esqueça de ligar o seu  rastreador.

— Valeu por me lembrar, professor — ele respondeu. — Já estou chegando na Columbus Circle.

A maior preocupação de Hellboy era que a fada chamasse um táxi e desaparecesse na cidade. Tal preocupação se dissipou quando a criatura levou suas presas até o metrô, mas um novo pavor surgiu: o de perdê-las por conta da lotação na plataforma. Hellboy os perseguiu praguejando, enquanto passava o corpanzil por sobre as catracas. Ele avistou seu desafeto no sentido do Centro e ficou secretamente aliviado de ver que o garotinho  e a garotinha, exceto por estarem extremamente quietos e dóceis, não pareciam feridos.

Ele misturou-se com cuidado à multidão para que a criatura não capturasse seu odor por acidente. A última coisa que precisava era que ela percebesse a sua presença e ferisse as crianças. Contudo, a fada parecia estar preocupada em manter os jovens sob o seu controle, enquanto conservava o próprio semblante de humanidade, para prestar atenção em qualquer outra coisa.

Enquanto seguia sutilmente a fada para dentro do trem, Hellboy não pôde evitar uma sensação de espanto ao refletir como aquela raça se adaptara bem ao mundo moderno. Ele se perguntava quantos cartazes de desaparecidos eram de direta responsabilidade de criaturas como aquela que seguia. Afinal de contas, fadas raptavam crianças há séculos, bem antes dos alienígenas cinzentos sequer pensarem em dar as caras. Por que parariam agora?

O problema com infestações de fadas era que os humanos modernos não acreditavam mais nelas, o que oferecia ainda mais espaço para suas estirpes mais nefastas agirem loucamente. Para o humano comum, as fadas eram menininhas do tamanho de um polegar, vestindo roupa agarrada de bailarina e com asas de borboleta, fiéis à imaginação dos livros infantis e animações, e isso era tudo.

Claro, a “fada” era um termo impróprio. Havia numerosas espécies e subespécies, assim como “peixe”, “primata” e “pássaro” compreendem todo tipo de descrição daqueles animais. Todas elas eram imprevisíveis e capciosas, e muitas eram criaturas genuinamente malignas. Elas tinham formas e tamanhos variados e, aparentemente, existiam ao lado  da humanidade desde os dias mais antigos, graças principalmente à capacidade de se “esconder em plena vista”, uma capacidade sobrenatural de se ocultar da mente dos seres humanos.

A raça das fadas variava de criaturas incrivelmente belas, como as Seelies, aos deformados Kobolds, passando pelos horrores amorfos chamados Brollachan. Neste caso, ele estava enfrentando um Cailleach Bheur, um dos membros mais perigosos e desagradáveis de toda a maldita família.

Na antiga Escócia, antes do advento do cristianismo, essa era uma das estirpes mais temidas do povo das fadas. Na época, eram conhecidas por Bruxas Azuis, famosas pela crueldade e voracidade. Eram particularmente perigosas para os viajantes, e também para as crianças enviadas para apanhar lenha nas matas ou água nos córregos próximos. Com o passar do tempo e o crescimento da civilização, foi ficando mais difícil para que confiassem em métodos predatórios tão diretos. Foram forçadas a se tornarem mais audazes e inventivas se quisessem continuar alimentadas. Assim, usavam seus poderes para nublar a mente dos homens, lançando charme e criando feitiços que as tornavam mais atraentes para as presas. Assim, com o tempo, as temíveis Bruxas Azuis cederam lugar às belas Fadas Azuis.

E os seres humanos, sendo o que são, romantizaram essa história de caçada sistemática ao escrever baladas e poemas de todas as formas sobre a terra das fadas, as fadas das noivas e crianças transmorfas que eram substituídas por fadas. Tudo era uma completa besteira. Tarn Lin, La Belle Dame Sans Merci, Le Morte d’Arthur, A Fada Queene, Peter Pan, O Flautista de Hamlin… tudo a mais completa porcaria. Aqueles que eram atraídos pelas fadas não iam parar num mundo sob uma colina, onde era sempre verão, ninguém envelhecia e todos dançavam ao som de violinos a noite inteira. Eles iam direto para a barriga da fada, isso se tivessem sorte. Se tivessem azar, eram usados como incubadores. Hellboy odiava ter de lidar com fadas. Eram invariavelmente desgraçadas manhosas e difíceis de matar por conta da sua constituição.

A Cailleach desceu do trem uma parada antes do Brooklyn. Hellboy não se surpreendeu que ela tenha escolhido fazer seu covil em East Village. Caminhando entre os cidadãos taciturnos, de roupas escuras, cheios de tatuagens e piercings na Avenida A, a Cailleach e suas vítimas eram um retrato da normalidade. Nem mesmo Hellboy levantava alguma sobrancelha ao passar da Avenida B.

A fada se dirigia para os mais profundos recessos de Alphabet City, onde os empreendedores imobiliários ainda tinham de reivindicar os condomínios em ruínas e arrancar das sombras os viciados em crack e metanfetamina que restavam. Naquela vizinhança arruinada, isolada da revitalização financeira que levara restaurantes japoneses e butiques da moda até a extremidade norte da Avenida Houston, ainda havia tiro ao alvo nas ruas e ratos do tamanho de pequenos cachorros se alimentando nas pilhas de lixo jogado. As ruas ainda eram maldosas ali, e as sombras, mais escuras. Era a localidade perfeita para tipos como uma Cailleach Bheur cuidarem de seus negócios sem interferências.

Hellboy ficou meio quarteirão para trás, enquanto observava a Cailleach adentrar um cortiço podre, com janelas fechadas por tábuas e uma fachada em ruínas, totalmente pichado e coberto por urina humana. Ele aumentou o passo; os cascos ressoando alto no chão. Não dava para esperar pelos outros. Tinha de agir agora ou tudo estaria perdido.

O interior do edifício fora estripado, parecendo-se com um esquálido átrio de quatro andares, com vigas de madeira cruzadas acima da cabeça. O que restara do térreo gemeu ante o peso de Hellboy quando este o testou com seus cascos. Mesmo com sua visão totalmente adaptada ao escuro, a treva do edifício abandonado era densa demais para que ele visse o que poderia estar espreitando nas sombras.

Resmungando, ele apanhou sua lanterna do Bureau de um dos bolsos internos do sobretudo e direcionou o feixe de luz ao longo de um dos caibros sobre sua cabeça. Eles estavam envolvidos por algum tipo de teia azulada, sob a qual havia um ninho pen- dular, similar àqueles criados por aves fiandeiras, feito da mesma substância. Hellboy jogou o feixe mais longe e foi recompensado pela visão de um grande conjunto de sacos de seda presos à parede mais distante. Ele não precisou contar para saber que havia doze deles.

Ele captou um movimento pelo canto dos olhos. Por instinto, mirou o feixe de luz em direção a ele. Havia um homem encostado na parede, os braços e as pernas estendidos, como se estivesse fazendo anjinhos de neve em pleno ar, os punhos e os tornozelos postos no lugar pela teia que compunha os ninhos da Cailleach. A julgar pelos farrapos de terno que pendiam de seu corpo judiado, ele deveria ser um indefeso trabalhador que a fada seduzira no caminho; um Tam Lin moderno atraído para a Terra do Nunca pela La Belle Dame Sans Merci.

O homem se contorceu convulsivamente uma segunda vez. Hellboy se aproximou.

— Ei, colega, fique calmo. A cavalaria chegou — ele sussurrou.

A cabeça do trabalhador pendeu para trás, por sobre os ombros. Sua pele estava cinza e coberta de escaras, os olhos, afundados nas órbitas. Exceto por uma barriga grotesca e distendida, ele se parecia mais com um espantalho do que com um ser humano. Um som de dor, gorgolejante, escapou da garganta do homem. Seja lá o que o transformara de trabalhador para incubador, havia tomado a sua língua.

Com um rugido de raiva e nojo, Hellboy sacou de dentro do sobretudo um dos sinalizadores que guardava para emergências e o bateu contra a parede de tijolos. Uma chama vermelha e sinistra, parecida com aquelas dos lagos onde ele nascera, surgiu, iluminando as trevas, mas ao mesmo tempo gerando sombras contorcidas.

— Agora chega! Cansei de brincar, sua fadinha maligna de porão! — ele gritou, com a garganta inchando como a de um touro. — Você sabe que estou aqui e eu sei que você está aqui. Então, mostra a cara!

Houve um sibilo como uma cesta de cobras furiosas vindo do alto. Hellboy olhou para cima e viu a Cailleach de pé em um dos caibros expostos, cercada de ambos os lados pelas crianças roubadas.

— Os mortais são meus, demônio! Vá encontrar sua própria carne de criança para encher a barriga! — a criatura grunhiu.

— Não, obrigado. Prefiro miojo, se não se importa — ele retorquiu. — A propósito, como foi que subiu aí?

Em resposta, a Cailleach se lançou sobre Hellboy, revelando um par de asas membranosas, quase opacas, como as de uma vespa, que saíam das costas. A fada atingiu Hellboy com força surpreendente, derrubando-o de costas e apagando a chama.

A Cailleach sentou sobre o peito largo de Hellboy, arranhando a pele de rinoceronte que cobria seu corpo e seu tórax, usando as garras longas e afiadas. Agora que não tinha mais de se preocupar em manter as aparências, a fada mostrava a face que nenhum mortal vira e vivera para contar.

A beleza efêmera havia desaparecido, tão importante para atrair as presas humanas para longe de seu rebanho, deixando no lugar algo saído diretamente dos pesadelos de um exterminador. Em segundos, a sílfide sofrera uma metamorfose de uma bela e delicada criatura para um inseto humanoide hediondo.

No lugar da boca havia ferrões ferozes, similares a pinças, com presas que pingavam veneno. Os olhos dourados se transformaram em duas órbitas bulbosas. Os cabelos longos e sedosos de cor de ovo de tordo-comum rapidamente brotaram por todo o resto do corpo, como os pelos de uma tarântula. Longas antenas parecidas com açoites pendiam do topo da cabeça.

Sibilando de frustração, a Cailleach arqueou a parte inferior do corpo, e Hellboy rapidamente saiu da frente bem no momento em que um ferrão de trinta centímetros estocou exatamente onde estava um momento antes.

— Vai ter que fazer melhor do que isso, mocinha. Não sou um trabalhador desavisado de Long Island — Hellboy grunhiu, pondo-se de pé, com seu rabo oscilando para frente e para trás como um tigre caçando.

A Cailleach emitiu um som agitado que pareceu um tipo de alarme; então, espalhou feixes viscosos de teia das glândulas da boca, que acertaram os olhos de  Hellboy.

— Droga! — ele berrou, recuando, enquanto agarrava a substância pegajosa que cobria seus olhos. Desequilibrado, ele cambaleou e colidiu com o homem que estava preso à parede.

O homem sem língua emitiu um último estertor e teve um espasmo, ao que o inchaço obsceno em sua barriga estremeceu violentamente. Uma multidão de pequenas criaturas aladas, do tamanho da ponta do dedo de um bebê, saiu de dentro da boca escancarada do morto, do nariz e dos ouvidos, numa grande nuvem pungente.

— Que ótimo! Era só o que precisava… fadinhas! — Hellboy afirmou. Sem pensar, usou a mão direita para atingir as sílfides em estágio de ninfas, esmagando a maior parte da horda contra a parede, usando o punho maciço de pedra. O impacto sacudiu o prédio até suas fundações arruinadas como se tivesse sido atingido por uma bomba, arrancando as crianças hipnotizadas de seu transe profundo.

Hellboy congelou, incapaz de tirar os olhos das crianças no alto. Ele se amaldiçoou por ser tão negligente. Chegar até ali apenas para quase matá-las com uma única ação impensada.

A garotinha foi a primeira a se mover. Ela piscou, como se despertasse de um sonho, e começou a tremer e a chorar. O menino esfregou os olhos, tal qual um sonâmbulo despertado no meio de um passo, e olhou ao redor, desorientado.

— Crianças! Não se movam! Fiquem paradas! — Hellboy gritou.

O garoto olhou para baixo, seguindo o som da voz, e imediatamente perdeu o equilíbrio, escorregando do caibro.

Hellboy deu um salto poderoso, torcendo para conseguir apanhá-lo em tempo. A Cailleach rosnou e moveu-se para bloqueá-lo, mas Hellboy foi rápido demais. Ele segurou a criança nos braços estendidos um segundo antes de ela atingir o chão, então, atravessou as tábuas podres ao pousar, caindo no porão escuro logo abaixo.

Ele apertou a criança contra o peito e enrolou-se em volta dela, protegendo-a o melhor que pôde do impacto. A queda fora forte, levantando uma nuvem de pó na forma de um cogumelo atômico, mas ambos saíram ilesos.

Eles estavam no porão, próximos a uma fornalha em desuso, cuja porta estava aberta como a boca de um deus furioso. Hellboy olhou para o buraco que fizera no teto enquanto se levantava e viu os olhos compostos da Cailleach o encarando, o veneno escorrendo das presas, antes que ela saltasse sobre ele.

Por instinto, Hellboy virou as costas para a criatura, apertando a criança o mais firme que ousava. Quando o ferrão da fada mergulhou em sua carne, ele fez uma careta e olhou para baixo, para o rosto erguido da criança em seus braços. O dedão do garoto estava na boca; seus olhos tão arregalados de terror que pareciam vazios. Pela primeira vez, Hellboy teve medo, não por si, mas pelo pequeno mortal que carregava.

O ferrão da Cailleach foi doloroso, mas não teve o mesmo efeito paralisante que teria em um ser humano. Em vez de desligar o sistema nervoso autônomo, queimou como se alguém tivesse injetado ácido prússico em sua espinha.

— Sai daí! — ele berrou.

Com velocidade surpreendente para o seu tamanho, ele alcançou as costas com a mão direita e segurou o ferrão da Cailleach, que lutava para arrancá-lo. A gargalhada histérica e insetívora da criatura rapidamente tornou-se gritos de dor.

Hellboy virou-se e usou a cauda para derrubar o oponente; então, agarrou as asas feridas da fada com seu aperto rochoso, as esmagando com a mesma facilidade com que o faria com um aviãozinho de papel. Ignorando a dor na base de sua espinha, jogou a Cailleach dentro da fornalha aberta.

Trocando com cuidado sua carga preciosa para o braço direito, Hellboy liberou a esquerda para poder alcançar um dos compartimentos de couro de seu cinto, apanhando uma pequena esfera de metal.

— Fica esperta, garota — ele latiu, jogando a bomba térmita ativada dentro da fornalha, bem quando a Cailleach lutava para se libertar. Então, dando as costas no mesmo instante, encolheu-se firme, enrolando o rabo ao redor do corpo. Houve um clarão luminoso, seguido de um intenso calor cauterizador e, enfim, um último e pavoroso som da Cailleach Bheur. A seguir, restava apenas o fedor de carne e cabelos queimando.

Um segundo depois, Hellboy abriu os olhos e ficou de pé, observando o pequeno inferno que o cercava. Ele se esquecera de todo o lixo que havia no porão, o qual imediatamente se incendiara.

Pela primeira vez desde que despertara do transe, a criança começou a se mover nos braços de Hellboy, chorando como um animalzinho assustado.

— Fica firme, garoto — ele disse, tentando soar calmo. — Fica firme que vou dar um jeito de nos tirar desta.

Súbito, as chamas que cercavam Hellboy repentinamente amainaram e, então, apagaram abruptamente.

— Sua amigona da vizinhança pirocinética ao seu dispor — disse Liz Sherman, metendo a cabeça pelo buraco feito no teto do porão. A jovem e atraente manipuladora do fogo estava de joelhos na beirada do buraco, meneando zombeteira. — O que faria sem mim pra salvar esse seu grande rabo vermelho, Hellboy?

— Acho que ia tostar que nem uma galinha no espeto — ele respondeu, com um sorriso seco. — Estava começando a me perguntar quando vocês chegariam.

— Chegaríamos um pouco antes, mas tenta tirar um furgão de vigilância do centro da cidade a esta hora do dia — Liz disse, fungando de desgosto. Uma expressão de preocupação cruzou seu rosto ao perceber pela primeira vez a criança aninhada nos braços dele. — Jesus… a criança! Ele está…?

— Vivo? Sim. Mas está em choque.

Liz rapidamente fez um sinal pedindo que uma equipe de paramédicos, estacionada atrás dela, seguisse adiante. Hellboy segurou a criança acima da cabeça, entregando-a para a equipe de resgate, que rapidamente tiraram o garoto das vistas dele.

— Precisa de ajuda pra sair daí, grandalhão? — ela perguntou.

— Não… saio daqui rapidinho. Tem umas escadas aqui que parecem levar até a rua. Estão fechadas, mas não será problema.

Menos de um minuto e de uma forte ombrada depois, Hellboy estava de pé, na calçada. Havia várias viaturas da polícia de Nova York e ambulâncias paradas ao

longo da rua, as sirenes de emergência azuis e vermelhas lançando sombras coloridas nas trevas. Hellboy conhecia bem as expressões que estampavam o rosto daqueles profissionais experientes ao verem os horrores que o interior do prédio ocultava.

— Hellboy!

O professor estava ao lado do furgão do Bureau, segurando um copo de isopor enorme de café.

— Acho que gostaria disso aqui — disse Bruttenholm.

— Você me conhece bem demais, velho — Hellboy sorriu. Enquanto tomava a bebida quente e amarga, um paramédico saiu de dentro do prédio, carregando a garotinha envolvida num cobertor térmico.

Apesar da provação, a criança parecia notavelmente alerta. Para a surpresa de Hellboy, a menina sorriu e acenou, como se ele fosse um dinossauro roxo.

— Senhor Fera! — ela gritou, excitada. — Obrigada por salvar a gente! Hellboy fez uma careta:

— Do que foi que ela me chamou?

— Ela acha que você é a Fera — Liz disse, sem explicar de fato, enquanto se juntava ao professor e a Hellboy.

— Quê?

— Você sabe… de A Bela e a Fera. O monstro que, na verdade, é um príncipe belo  e heroico por dentro.

Hellboy grunhiu e devolveu o aceno da garotinha.

Mas ele estava sorrindo.

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Joana Rosa Russo
joanarrt@gmail.com

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