Como é o Tex na visão feminina? Na sua visão? O faz você ler a HQ?

Foram estas as perguntas que recebi de um grande amigo. Pensei por alguns dias em como colocar num papel tudo o que Tex representa e como o fumetti é encarado por uma mulher. Mas, cheguei a conclusão que seria apenas parte da visão feminina sobre ele, já que, Tex para mim, é psicologicamente, como um pai e me forneceu um vínculo muito particular.

Então comecei a pensar as várias facetas de Tex, como personagem em si, para além da HQ: a de pai, a de parceiro e amigo e, claro, a de marido. E mais que isso: o que o “quarteto” de amigos influi na minha concepção de leitura e porque me sinto tão atraída pela história?

Só depois é me questionei sobre a obra em si: porque eu gosto tanto de ler? O que é o fumetti Tex para mim? O que leva uma mulher se interessar por uma leitura tipicamente masculina?

 

Tex 

 

1. O Tex “pai”

Tex é um modelo de pai tanto para filhos homens quanto para filhas mulheres. Não só pelo tato cuidadoso que ele já demonstrou ter com crianças ou mais jovens, independente de seu gênero, mas pela própria feição austera e brincalhona. E isso lembra exatamente meu pai.

O modelo a ser seguido, o herói que vemos em nossos pais. Esse é o puro Tex. Tanto faz se ele levar o bandido à prisão, ele é nosso pai, sempre será incrível. Sejamos meninos ou meninas nas leituras. O ar que parece quase arrogante e o excesso de confiança também são traços que vemos nos pais. As lições, quando necessárias, o comando firme. A doçura da preocupação. Todas estas características estão presentes em Tex, é verdade, mas muito mais evidentes no Tex pai.

Meu pai era assim: ele podia esquecer de muitas coisas, mas se poria a prova se tivesse de me defender, defender nossa família. E assim, para a mulher, Tex, assim como seu pai, é o primeiro modelo de homem que aprendemos a apreciar.

É justamente disso que a psicologia fala. Segundo vários estudiosos e escritores sobre relacionamento familiar e comportamento, a figura do pai existe para romper o vínculo da menina com a mãe, despertando o interesse na figura oposta, o que além de importantíssimo, faz com que o amadurecimento emocional da criança comece a se desenvolver.

Segundo Freud, esse processo é fundamental também para a orientação sexual da menina na vida adulta. A lógica é simples: ao ver que a mãe tem um relacionamento com o pai, a menina tende a imitá-la e se apegar ao pai, rivalizando com a mãe pelo amor dele. É muito comum a menina pequena dizer que é “a namorada do papai”. Ao perceber que o pai “pertence” à mãe, a menina se identifica com ela e quer ser igual a ela para conquistar o amor do pai, o que em boa maioria, mais tarde se manifestará na procura de homens com características semelhantes às dele. Toda essa persecução dá-se em um nível inconsciente, logo, é o instinto da criança agindo de forma natural, sem que, necessariamente, ela tenha ciência disso ou que esteja sendo induzida.

Ainda pelo estudo da psicóloga Carmen Cerqueira César, “Ele (o pai) as frustra e priva, ao estabelecer limites, para que a criança não fique cativa dessa relação primitiva (que se continuar se tornará mortífera) presa à onipotência do desejo materno. Isto é o que chamamos em Psicanálise de função paterna. Ela constitui o eixo fundamental na estruturação psíquica do sujeito.”

E tanto é verdade, que outros profissionais da área, como o caso de Regina Rahmi, psicanalista, a verdade desta referência é uma só: “Tal pai, tal namorado, marido…”. O apego ao modo e à figura paterna evidenciam, em parte, o futuro. Então Tex é modelo perfeito de pai numa visão feminina mais puritana e familiar possível. O Tex pai, é referência e modelo de homem admirado, o típico herói e futuro marido.

 

2. O Tex parceiro e amigo pela visão de uma mulher

Tex é o típico amigo parceiro, ou típico parceiro amigo. Neste caso, para a visão da mulher, tanto faz, ele será o amigo ideal: sempre disposto a ajudar e enfrentar o perigo. E aqui neste ponto vou abusar da referência amplamente explorada na Graphig Novel “Frontera”, em que a personagem Blanshe vai em busca de Tex para vingar seu pai, morto covardemente (que ajuda não só pelo propósito, mas também pela identidade, em certo ponto, da vingança).

Embora no início seja confusa a intenção de Blanshe, no decorrer da história a amizade que se desenvolve entre eles é a tradução da fidelidade entre os melhores amigos: o propósito move mais que qualquer outro sentimento.

Desde a mais boba brincadeira…

Até a preocupação mais genuína.

Esse modelo respeitável, corajoso, impetuoso, protetor e austero de Tex traduz para a leitora, novamente, a figura paterna, agora sob sua faceta de proteção.

 

 3. Tex marido, amante ou namorado (cogitados e sugeridos)

 

A primeira referência que temos que sugere algo entre Tex e mulheres é com o surgimento de Tesah, a índia que coopera com o ranger de forma muito peculiar e esperta. Tesah participa de algumas boas aventuras e desempenha, durante vários quadros papel muito importante nas aventuras. Embora alguns relatem que hipoteticamente a índia teria interesse no herói, a verdade é que a amizade de ambos é como uma irmandade, sem interesse além disso.

Quem aparece de forma mais contundente na história, e aí sim, com um toque mais carregado na sua intenção, é Lupe.  Fora os sinais nítidos de sua paixão por Tex, lembrem que, quase que em tom de brincadeira (para suavizar o clima), assim retratado por Galep e Bonelli avô, a mexicana acaba sugerindo um casamento ao herói que acaba engolindo a seco a proposta de maneira divertida:

Não se sabe com a exatidão estampada nos quadrinhos qual o nível de relacionamento que Tex e Lupe mantiveram. Muito se afirma, inclusive pela boca do mestre Boseli, que os dois tiveram sim um romance e que chegaram as vias de fato. A afirmação foi feita durante a Cartoomics de Milão de março de 2014, que foi publicada no nosso tão conhecido Tex Willer Blog, do parceiro José Carlos Francisco, e estampou:

“Está também em programa nada mais do que o regresso de Lupe Velasco (e se devo dizer-lhes de quem se trata, não são verdadeiros texianos), uma das poucas mulheres com quem Tex teve uma história de amor (e de sexo, sublinhou Boselli). Boselli está indeciso se deve ambientar a história no passado pouco depois da morte de Lilyth ou no presente.”

Sabemos que sim, a história de fato existe, e o encontro foi no presente. Isso se nos referirmos a esta recente publicação de “O Retorno de Lupe”. Os brasileiros que ainda não tiveram acesso a história, esperam. No entanto, outros tantos que já leram a publicação denotaram uma certa “frustração” com o desfecho da história. Acho que prefiro aguardar e tirar minhas conclusões porque, pelo visto, não foi exatamente “o que queriam”.

Porém nem tudo está perdido: atentem para o fato que em 2018 Tex completa 70 anos de publicações e já foi noticiado que muitos escritores e desenhistas tiveram liberdade de criação. Aos poucos vamos descobrindo mais sobre o que vem por aí, MAS, o véu do mistério ainda recobre um pouco as especulações. De todo modo, o que aconteceu, mesmo que hipoteticamente, entre Tex e Lupe, não é apenas um affair, mas tem todo indício de um romance muito bem construído, já que Lupe não é exatamente uma mulher “pacifista”.

Já agora no plano da afirmação temos Lilyth, a oficial esposa de Tex. Para mim, leitora mulher, confesso que foi bastante “água com açúcar” a história dos dois. Não, não me refiro a cenas tórridas de romance, mas esperava um pouco mais de ação da então “sra. Águia da Noite”, como Lupe e Tesah já haviam desempenhado.

Lírio Branco começou bem, pondo a pele em jogo para salvaguardar a injustiça que haviam cometido contra Tex, mas aparentemente a partir daquele ponto, sua importância foi bem pouco explorada, a não ser, claro, pelo fato do ato de coragem e depois de ter gerado o filho, Kit Willer. Mas, se minha opinião valer de algo, e confesso que sei que devo provocar a ira de muitos leitores, Lilyth, de longe, foi uma das personagens com a participação menos empolgante na história e até certo ponto revoltante, para mim.

Há quem argumente que seja pela época… Mas, pessoalmente, como disse, duvido. Duas outras passagens femininas já haviam sido sacramentadas e não foram tão simplórias e bem mais ativas, do ponto de vista de roteiro e desenvolvimento de personagem. Por outro lado, pela convicção pessoal, creio que foi proposital terem moldado uma personagem de importância, mas sem relevância, pois sua morte deveria impactar sem causar indignação no leitor.

Lilyth foi uma personagem corajosa, mas com ressalvas. Há quem possa me acusar de ser radical ou ter outros modelos femininos na cabeça. É, pode até ser, mas achei, por exemplo, a personalidade de Blanshe muito mais apurada e condizente com a literalidade da palavra coragem do que a “Sra. Águia da Noite”. Mas enfim, a seara que entramos é subjetiva, na verdade, mas para mim como mulher, Lilyth deixou a desejar, já que, tendo um parceiro como Tex, seu ímpeto, em tese, seria outro.

Que fique claro que não questiono sua importância, mas sim seu desenvolvimento pobre e simplista. Sem contar no relacionamento muito artificial e fabricado, que a mim, não convence e padece de intensidade e amor.

E falando em convicção pessoal, Alisson, a personagem marcante e mulher extraordinária criada por Civitelli em seu especial, é o par perfeito para Tex. Para mim, ela foi a primeira mulher que Tex desenvolveu, NATURALMENTE, afeto. E mais que isso, é como, finalmente, fosse permitido ao ranger expor, de certa forma, mesmo que em atos contidos, a demonstração de algum sentimento. O que quero pontuar é que pela primeira vez vimos algo desabrochar sem a necessidade de um fator determinante, como aconteceu com Lilyth. Em relação a Lupe, a força da circunstância é que leva a tal conclusão. Mas lembrem do início: o interesse era sempre da mulher para e Tex e não o contrário, como aconteceu quase que simultaneamente na história do “Especial Civitelli”.

Alisson também é diferente: a garra que nutre seu caráter, sua força e até a abnegação de sentimentos é algo muito superior em qualquer relacionamento que já presenciamos de Tex ou acabamos sugerindo. Alisson é a companheira, é a parceira, é a guerreira. Seu jeito cuidadoso, sua fala densa cheia de sentimentos, seus atos… Sua coragem de simplesmente seguir porque CONFIA e não porque necessita é algo humano e incrível, ao menos para mim. Sua separação de Tex foi algo dolorido: doeu na alma, no coração. E não só na do leitor, mas ao que leva crer, tudo indica que Tex ficou fortemente impactado. É como se no último quadro ele refletisse consigo: porque eu a deixei partir?

O romance despontado entre os dois é daqueles que comporta uma, duas, e mil aventuras: sem melodrama, mas com a presença de uma figura incrível que pode, inclusive, dar novo ar as histórias, como coadjuvante de sucesso ou até mesmo mais uma candidata a tirar sarro do velho Carson. Não precisa estar presente em toda aventura, evidente, mas saberemos que a volta é sempre esperada e ansiada por ela, ele e nós[1], claro.

Tanto a relação com Alisson foi algo único e diferenciado, que até mesmo o mestre Civitelli, ponderou sobre um eventual reencontro entre eles. A declaração saiu publicada na Tex Almanaque 25, como se vê ao lado. A afirmação vem colocar –novamente, a polêmica e a dúvida se Tex terá algum romance ao pé da letra.

Há ainda outras passagens diminutas de Tex com outras personagens femininas, que embora marcantes não chegaram exatamente a despontar uma possível sensação de “futuro”, e acabam caindo numa impressão da “mulher que se seduz sozinha”, justamente pela figura austera e de referência de Tex, que sempre encanta e faz ter esperança.

 

Kit Carson e seu – quase – sempre sucesso com as mulheres

 

A figura caricata em muitas aventuras de Kit Carson, mas, ao mesmo tempo, experiente e segura, atrai olhares femininos, é verdade, e não só de algumas personagens, mas também de leitoras.

Ao contrário do que possa imaginar, que apenas Tex é o centro de uma referência e até mesmo de idealização, Carson, é a perfeita figura atraente, mais velha e experiente. Posso ser uma voz dissonante, mas há quem concorde comigo, como a jovem “Tiro Certeiro” (O retorno do Mestre), que apesar de se divertir um pouco com o jeito do velho ranzinza, denota que não é apenas uma admiradora de seus dotes.

Ainda pontuando outra personagem, temos Lena Parker, que tem efetivamente um romance com nosso Don Juan de barba branca. E sendo sincera, apesar de muito lacunosa a descrição (O passado de Kit Carson e a pequena passagem em Os sete assassinos), Lena me deixou com vontade de sentar e tomar um café para saber de sua história: um romance revisitado que não perdeu a florescência apesar da distância e do tempo (não entrarei em mais detalhes sobre o passado do ranger para evitar spoilers).

Uma figura muito presente acabaria por completo com a personalidade de Carson, bonachão e atirado, mas dá vitalidade e humanismo ao personagem que, para mim, encanta. Kit ao contrário do que se prega não é exatamente promíscuo ou mulherengo: sua observação constante nas mulheres de forma admirativa e cultual denota a falta que uma figura feminina faz, não só fisiologicamente, mas também emocionalmente. Se destacam as passagens de seus impropérios, mas por vezes Carson é o mais admirador do belo sexo  e não faz o gênero de velho abusado ou assanhado.

É claro que suas investidas cômicas acabam sempre com um certo insucesso ou um sucesso mediano, mas ele é o perfeito contraponto de Tex. Na verdade, Carson é a figura mais humana que dá balanço ao enredo. Tex por si, é um super-herói, até mesmo quando ainda fora da lei ou retratado de forma mais cruel (como visto em O Herói a Lenda), diferente de Carson, que por vezes passa por questionamentos ou até mesmo atos de qualquer humano médio.

A personalidade de Carson é provocativa, o que atrai de certa forma os olhares e a curiosidade feminina. Mais do que a mera atração, mas provoca o senso de feminilidade em quem o conhece, no quadrinho ou fora dele.

 

Kit Willer

 

Para ser sincera, embora seja alvo de muitos olhares, Kit não está nem ao mar e tanto à terra: ele seria o meio termo de vinte e poucos anos que arrasa corações, mas ainda tem sede de aventura no sangue, mais do que o amor a descobrir.

Encanta por sua postura como já aconteceu até mesmo com Dona, filha de Lena, e ainda seu outro affair de origem mexicana (Os dois rivais), que em verdade, embora histórias e construções excelentes, ficou quase como um romance adolescente com aquela dor no coração de não poder ter para si o amor ou na pior das hipóteses, ver aflorar um amor proibido.

Kit dá um balanço mais ameno, pois não chega a exatamente ser o herói, mas não fica relegado a um papel tão secundário, o que atrai e desperta curiosidade em saber mais sobre o sucessor de Águia da Noite ou qual será a opção do caráter do jovem… Será que de fato continuará na trilha do pai? Ou de repente se entregará ao colo de uma bela jovem?

 

Jack Tigre

 

O índio misterioso e de pouca fala é, sem dúvidas, um personagem decisivo. Na verdade, o interesse para além de uma referência como homem é na verdade na existência de um mistério sobre si mesmo.

Seu jeito meticuloso e sempre leal confere a Tigre um despertar nato na leitura. Mas que diabos esse índio tem de tão especial, indaga-se. Durante a leitura somos convidadas a tentar desvendar a complexidade do personagem. É como se sua construção no roteiro fosse um jogo de quebra-cabeças que tentamos, incansavelmente, desvendar.

A mente feminina, evidente que não na totalidade das mulheres, sempre tende a analisar as situações. Talvez Jack Tigre para nós, seja uma referência de nós mesmas, guardadas as devidas proporções.

A HQ EM SI – Porque lemos Tex?

É sempre difícil você qualificar porque Tex é atraente. Concordo que há elementos comuns, como a qualidade do roteiro e os desenhos, mas… O que o roteiro tem para nos atrair tanto? Quer dizer, para atrair um pequeno público feminino?

E foi escrevendo sobre os quatro personagens principais é que me dei conta da razão: a leitura de Tex nos oferta muito mais do que um simples passatempo ou uma leitura prazerosa e divertida. Ela nos fornece referências e desafios que buscamos durante toda a vida, todo momento. Seja em nossos pais, parceiros ou amigos. Tex, sem querer, é um acolchoado para nossos sonhos e anseios, onde podemos nos entregar à imaginação e fazer parte daquele ambiente.

Mas mais que isso: não ser apenas a candidata perfeita a Tex, Carson… Mas ser a parceira de sela, a decisiva… Assumir ao lado deles, ou até mesmo o papel deles como precursora, como símbolo de ideal, justiça e esperança. O ímpeto da solução, a engenhosidade da resolução. O peso da responsabilidade, das consequências, da trama e dos objetivos. Da preservação da vida, do amor, da morte.

A hostilidade do ambiente, a habilidade nas armas e a inteligência. Na verdade, isso não é algo tão longe de nosso dia a dia. Seja em sentido figurado ou não. As barreiras que transpomos e a realidade que vivemos é sempre uma roleta, como no Oeste.

É engraçado me dar conta disso, porque afinal, mulheres tem a capacidade real de levantar ideais, de cuidar de todos e ao mesmo tempo, de destruir quem lhe cruza o caminho de forma vil. Toda regra há exceção, mas de repente, percebo, que Tex, não é exatamente uma história tão masculina: ser representada por homens não implica em ser feita ou destinada apenas a eles. Tex tem muito mais a ver com a essência feminina do que sempre se imaginou.

***

[1] É necessário esclarecer que a intenção NÃO é discutir SE TEX DEVERIA OU NÃO TER UMA OUTRA PARCEIRA, mas sim expor como eu, como mulher, e em minha concepção pessoal, recebi a sensibilidade emanada pela história

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Joana Rosa Russo
joanarrt@gmail.com

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